O algodão e a roupa que usamos podem conter resíduos químicos?

Quando pensamos em pesticidas, imaginamos campos agrícolas ou legumes no supermercado. Raramente pensamos na t-shirt que estamos a vestir.

Mas o algodão convencional é uma das culturas agrícolas onde mais pesticidas são utilizados em todo o mundo. E isso levanta uma questão legítima: será que alguns desses compostos chegam às fibras têxteis e depois à nossa pele?

Os pesticidas podem persistir nas fibras

Um estudo sobre o pesticida organofosforado profenofós nas fibras de algodão mostrou que resíduos podem estar presentes após a colheita. Os investigadores observaram também que o processamento industrial, incluindo etapas de lavagem como o scouring, reduz significativamente essa carga química.

Isto significa que a ideia de que “os pesticidas ficam para sempre na roupa” não corresponde ao que a literatura científica mostra. Mas também não é correto assumir que todo o resíduo desaparece completamente.

Outro estudo desenvolveu métodos laboratoriais capazes de identificar até 115 resíduos de pesticidas diferentes em amostras reais de tecidos. O resultado foi claro: alguns compostos agrícolas conseguem persistir no produto final, mesmo após o processamento têxtil.

A pele não é uma barreira impermeável

Esta é talvez a parte mais importante da discussão.

Um estudo clássico mostrou que pesticidas como o glifosato e o malatião, presentes em tecido de algodão, conseguem atravessar a pele humana em condições laboratoriais. A humidade e o suor aumentavam essa absorção.

Uma revisão científica sobre absorção dérmica de pesticidas reforça esta ideia: a penetração cutânea depende das propriedades químicas da substância, da concentração presente e do tempo de contacto com a pele.

Isto não significa que a roupa seja tóxica. Mas significa que a exposição dérmica a resíduos químicos presentes em têxteis é biologicamente plausível.

O problema vai além dos pesticidas agrícolas

A investigação recente sugere que os pesticidas são apenas uma parte da questão.

Um estudo que analisou roupas com técnicas avançadas de deteção química encontrou uma grande variedade de compostos em tecidos, incluindo plastificantes, retardadores de chama, compostos fluorados e substâncias usadas em acabamentos têxteis e impermeabilização.

Muitos destes compostos não vêm da agricultura, mas dos próprios processos industriais de produção têxtil.

Outro estudo avaliou os compostos libertados por 52 tecidos diferentes quando colocados em contacto com água e encontrou toxicidade mensurável em várias amostras. A roupa não é quimicamente neutra.

Então devo preocupar-me?

O que a literatura científica mostra, em conjunto, é que resíduos químicos podem existir em alguns têxteis, que certos compostos conseguem atravessar a pele e que a roupa moderna contém mais substâncias químicas do que a maioria das pessoas imagina.

Ao mesmo tempo, os estudos disponíveis não demonstram que usar roupa convencional cause intoxicação significativa na população geral. A dose, o tempo de contacto e a sensibilidade individual fazem toda a diferença.

Medidas simples

Não é preciso viver com medo da roupa que usamos. Mas há hábitos simples que podem ajudar a reduzir exposição desnecessária:

Lavar a roupa nova antes da primeira utilização.

Dar preferência, quando possível, a marcas mais transparentes sobre os seus processos de produção.

O objetivo não é criar medo. É perceber que aquilo que colocamos em contacto com a pele todos os dias também faz parte do nosso ambiente químico, e que a ciência está apenas a começar a compreender o impacto disso a longo prazo.

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