A tua esponja da loiça está a deixar microplásticos nos pratos?
Quando pensamos em microplásticos, imaginamos garrafas de água, embalagens ou lixo no oceano. Mas uma das fontes mais próximas pode estar dentro da nossa cozinha: a esponja que usamos todos os dias para lavar a loiça.
Nos últimos anos, vários estudos científicos começaram a olhar com atenção para este objeto banal. Os resultados são claros: as esponjas sintéticas libertam micro e nanoplásticos durante o uso normal.
O que mostram os estudos
Um estudo publicado na revista Science of the Total Environment usou microscopia eletrónica e imagiologia Raman para analisar esponjas de cozinha. Os investigadores confirmaram que as duas camadas da esponja, a mais macia e a mais áspera, se desgastam de forma diferente. A camada mais dura solta mais partículas e os plásticos identificados foram sobretudo nylon (PA6) e poliéster (PET), os mesmos materiais usados em muitos tecidos sintéticos.
Outro trabalho, publicado em 2026 na revista Environmental Advances por investigadores da Universidade de Bona, foi além do laboratório. Juntou testes de ciência cidadã, com famílias na Alemanha e na América do Norte a usar as esponjas no dia a dia, com ensaios mecânicos controlados. A conclusão: uma pessoa liberta, em média, entre 0,7 e 4,2 gramas de microplástico por ano só por lavar a loiça com esponja sintética. A quantidade varia conforme o tipo de esponja, sendo menor nas que têm menos plástico na composição.
Um pormenor interessante deste estudo merece destaque: a maior parte do impacto ambiental da lavagem manual da loiça não vem do plástico libertado, mas sim do consumo de água. Isto não torna o microplástico irrelevante, mas ajuda a colocar o problema em perspetiva.
A esponja não está sozinha
Uma revisão científica de 2024 foi à procura de todas as fontes de microplástico numa cozinha doméstica comum. A lista é mais longa do que se pensaria:
Esponjas sintéticas
Tábuas de corte de plástico
Utensílios de cozinha em plástico
Recipientes para guardar alimentos
Revestimentos antiaderentes degradados
Os autores mostram que o calor, o atrito e as mudanças bruscas de temperatura, do congelador ao forno, são justamente o que mais desgasta estes materiais e liberta partículas.
E chega mesmo à comida?
Aqui a ciência ainda está a juntar peças. Uma análise sistemática publicada em 2025 na npj Science of Food reviu mais de cem estudos sobre materiais em contacto com alimentos. A conclusão foi que o uso normal e esperado de embalagens e utensílios de plástico pode, de facto, levar à migração de micro e nanoplásticos para os alimentos. Mas os autores também notam que faltam estudos de boa qualidade que quantifiquem com precisão quanto plástico passa de cada objeto para cada prato.
O que já se sabe, de forma mais ampla, é que microplásticos têm sido detetados em alimentos, água, sangue humano, pulmões, placenta e outros tecidos. Isto não quer dizer que a esponja seja a grande responsável. Significa que ela é mais uma fonte que se soma a muitas outras no nosso quotidiano.
Porque vale a pena prestar atenção
Os nanoplásticos, em particular, preocupam os cientistas porque são pequenos o suficiente para atravessar barreiras biológicas com mais facilidade do que partículas maiores. Ainda há muitas perguntas em aberto sobre os efeitos reais na saúde humana, mas a postura geral da comunidade científica é de prudência: reduzir exposições evitáveis, sem entrar em alarmismo.
Em resumo
A esponja da loiça liberta, sim, micro e nanoplásticos enquanto a usamos. Não é motivo para pânico, mas é mais uma peça de um puzzle maior: o de como os materiais sintéticos que nos rodeiam, na cozinha e fora dela, vão deixando um rasto invisível ao longo do tempo.
Pequenas trocas, como uma escova de madeira ou uma tábua de corte diferente, não resolvem o problema todo. Mas são passos simples e acessíveis que começam precisamente onde preparamos as nossas refeições.
Fontes:
Beyond the food on your plate: Investigating sources of microplastic contamination in home kitchens
From sink to Sea: Microplastic release from kitchen sponges and potential environmental effects
Food contact articles as source of micro- and nanoplastics: a systematic evidence map
Microplastic sources, formation, toxicity and remediation: a review
Shorts:
