Champô Seco: o que respiramos sem saber

O champô seco tem uma proposta difícil de recusar: cabelo com aspeto limpo em dois minutos, sem água, sem secador. Num dia agitado, é tentador usá-lo com frequência.

O problema é que uma parte do que aplicamos no cabelo não fica no cabelo.

O que entra no ar, entra em nós

Quando se pulveriza um spray perto da cabeça, forma-se uma nuvem de partículas microscópicas. Algumas ficam retidas nas vias respiratórias superiores. Outras, suficientemente pequenas, conseguem alcançar zonas mais profundas dos pulmões.

Um estudo sobre aerossóis de cosméticos em pó demonstrou precisamente isso: estes produtos geram partículas inaláveis com capacidade de penetrar no sistema respiratório.

Durante anos, a segurança dos cosméticos foi avaliada quase exclusivamente pelo contacto com a pele. Mas uma revisão científica recente argumenta que isso é insuficiente. Quando um produto é aplicado em spray, o trato respiratório deve ser considerado um órgão-alvo na avaliação da sua segurança.

O que acontece nos pulmões

Os pulmões dependem de um mecanismo essencial chamado surfactante pulmonar, responsável por manter os alvéolos abertos e garantir uma troca eficiente de gases.

Num estudo que avaliou 21 sprays de consumo doméstico, 13 mostraram capacidade para interferir com a função normal deste sistema.

Isto não significa necessariamente um risco imediato para utilizadores saudáveis. Mas levanta questões relevantes sobre o impacto da exposição repetida ao longo do tempo.

O caso do benzeno

Em 2022, análises laboratoriais a champôs secos detetaram benzeno quantificável em 70% das amostras testadas.

O benzeno é um carcinogénico humano reconhecido.

Neste caso, não fazia parte da fórmula intencional dos produtos. A contaminação terá surgido através de certos propelentes utilizados nos aerossóis.

Quando um produto é inalado, a relevância de qualquer contaminante aumenta substancialmente.

Ainda sabemos pouco

A investigação nesta área é relativamente recente e continua a evoluir.

Uma das linhas mais promissoras propõe o uso de organóides pulmonares para compreender melhor o impacto destes produtos no sistema respiratório.

A mensagem é clara: os métodos tradicionais de avaliação não foram concebidos para captar adequadamente os efeitos por inalação.

Ainda existe muito por compreender.

Uma revisão científica sobre o cálculo da exposição por inalação em sprays cosméticos reforça que o padrão de utilização destes produtos favorece a entrada direta nos pulmões, sobretudo em espaços fechados e pouco ventilados.

Em resumo

O champô seco pode parecer uma solução prática, mas está longe de ser um gesto neutro.

Ao ser aplicado em spray, liberta partículas e compostos que acabam no ar e, inevitavelmente, nas vias respiratórias.

A investigação mostra que esta exposição não deve ser ignorada, sobretudo quando o uso é frequente e em espaços fechados.

Não é apenas um produto para o cabelo. É também uma fonte de inalação repetida.

A conveniência existe. Mas o impacto também.

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