Existem Benefícios em Consumir o Caroço do Abacate?

De vez em quando surge uma nova moda alimentar. Uma das mais recentes é a ideia de que o caroço do abacate deve ser comido por ser “rico em antioxidantes” e outros compostos benéficos. Alguns especialistas defendem, outros rejeitam por completo.

O que existe no caroço do abacate

Do ponto de vista químico, o caroço do abacate é tudo menos inerte. Os estudos mostram que contém:

  • Compostos fenólicos e flavonoides

  • Taninos e proantocianidinas

  • Fibra alimentar

  • Pequenas quantidades de minerais

Estes compostos são conhecidos por terem atividade antioxidante e biológica em vários alimentos de origem vegetal. É aqui que começa a confusão.

O que os estudos mostram (e o que não mostram)

A maioria esmagadora dos estudos sobre o caroço do abacate foi feita:

  • Em laboratório (in vitro)

  • Em animais

  • Usando extratos concentrados, não o caroço inteiro

Nestes contextos, foram observadas várias atividades interessantes:

  • Atividade antioxidante

  • Efeitos anti-inflamatórios em modelos experimentais

  • Actividade antimicrobiana

  • Inibição da acetilcolinesterase em ensaios laboratoriais (um mecanismo estudado em doenças neurodegenerativas)

Alguns estudos mostram ainda que processos como fermentação e torra alteram o perfil químico do caroço e podem aumentar ou reduzir certas actividades biológicas.

Tudo isto é cientificamente válido. Mas há um detalhe essencial.

Extratos não são alimentos

Quase todos estes resultados vêm de extratos preparados com solventes específicos, em doses muito superiores àquelas que alguém obteria ao triturar ou ingerir um caroço em casa.

Isto é um ponto crítico que raramente é explicado nas redes sociais.

Um composto mostrar actividade antioxidante num tubo de ensaio não significa que:

  • Seja absorvido pelo organismo humano

  • Seja seguro em consumo regular

  • Produza o mesmo efeito quando ingerido como alimento

E quanto à segurança?

Aqui a ciência torna-se mais cautelosa.

Existem estudos de toxicidade em animais que mostram que extratos de caroço de abacate, quando administrados em doses elevadas, podem causar efeitos tóxicos. Em doses mais baixas, alguns estudos não encontraram genotoxicidade, mas isso não equivale a segurança alimentar a longo prazo em humanos.

O ponto mais importante é este:

Não existem ensaios clínicos em humanos que avaliem a ingestão do caroço do abacate como alimento.

Não sabemos:

  • Qual seria uma dose segura

  • Se há efeitos adversos a médio ou longo prazo

  • Se os compostos são realmente biodisponíveis

Aplicações industriais não são recomendações alimentares

Muitos artigos falam do caroço do abacate como um subproduto promissor para:

  • A indústria alimentar

  • A indústria cosmética

  • O desenvolvimento de ingredientes funcionais

Mas estas aplicações envolvem purificação, controlo de dose e avaliação de segurança. Não significam que o caroço deva ser consumido directamente em casa.

É a mesma diferença entre um composto estudado em laboratório e um alimento tradicional com histórico de consumo seguro.

Então, devemos comer o caroço do abacate?

Com base na evidência científica actual, a resposta honesta é simples.

Não há provas suficientes de benefício. Não há dados sólidos de segurança em humanos.

O caroço do abacate é um objecto de investigação interessante do ponto de vista químico e industrial. Mas isso não o torna automaticamente um alimento funcional ou uma escolha saudável.

Enquanto não existirem estudos clínicos bem desenhados em humanos, a recomendação mais prudente é não o consumir.

O abacate em si continua a ser um excelente alimento. O caroço, para já, pertence mais ao laboratório do que ao prato.

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