Nem todas as caminhadas têm o mesmo efeito no cérebro

Quando pensamos nos benefícios de caminhar, pensamos quase sempre no corpo: calorias gastas, coração mais forte, músculos mais ativos. Mas um estudo publicado nas Proceedings of the National Academy of Sciences pela Universidade de Stanford sugere que o local onde caminhamos pode ser tão importante quanto o próprio ato de caminhar.

O estudo

Trinta e oito adultos jovens saudáveis foram distribuídos aleatoriamente por dois grupos: uns caminharam durante 90 minutos num ambiente natural com vegetação, árvores e arbustos; os outros percorreram uma estrada urbana com tráfego intenso. A duração, a distância e o esforço físico foram praticamente idênticos. A única variável era o ambiente.

Antes e depois da caminhada, todos os participantes responderam a questionários sobre ruminação e realizaram exames de imagiologia cerebral focados no córtex pré-frontal subgenual.

O que é a ruminação e porque importa

A ruminação é um padrão de pensamento autorreferencial desadaptativo associado a um risco aumentado de depressão e outras doenças mentais. É o ciclo mental em que regressamos repetidamente aos mesmos problemas, preocupações ou falhas, sem avançar para nenhuma solução.

Os resultados

Os participantes que caminharam num ambiente natural reportaram níveis mais baixos de ruminação e apresentaram menor actividade neuronal numa área do cérebro associada ao risco de doença mental, em comparação com os que caminharam num ambiente urbano.

A actividade no córtex pré-frontal subgenual, região activa durante a ruminação, diminuiu nos participantes que caminharam na natureza, mas não nos que caminharam na cidade. Não foi apenas uma sensação subjectiva: houve alterações mensuráveis na actividade cerebral.

Porque pode a natureza funcionar melhor

Os autores do estudo propõem que os ambientes urbanos sobrecarregam o cérebro com estímulos constantes que exigem atenção dirigida e sustentada. A natureza oferece uma experiência diferente: os estímulos continuam presentes, mas são mais suaves e menos exigentes. O estudo identifica assim um mecanismo pelo qual a experiência na natureza pode melhorar o bem-estar mental, e sugere que áreas naturais acessíveis dentro das cidades podem ser um recurso crítico para a saúde mental num mundo cada vez mais urbanizado.

O que isto significa na prática

Mais de 50% das pessoas vivem hoje em áreas urbanas, e esta proporção deverá chegar aos 70% em 2050. A questão não é que as cidades façam mal. Caminhar numa rua movimentada continua a trazer benefícios físicos reais. O que este estudo acrescenta é que, quando existe a possibilidade de escolher, um ambiente natural pode oferecer algo que o asfalto não consegue: dar ao cérebro espaço para desacelerar.

Um parque, uma mata, uma costa ou um jardim próximo podem ser mais do que um cenário agradável. Para o cérebro, podem ser exactamente o que falta.

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