O que acontece ao nosso corpo quando entramos numa piscina com cloro?

Para muitas pessoas, uma piscina é sinónimo de verão, lazer e exercício. No entanto, o cloro utilizado para manter a água segura tem sido alvo de crescente preocupação, sobretudo devido a alegações de que pode ser rapidamente absorvido pelo organismo e causar diversos problemas de saúde.

Mas o que diz realmente a ciência? Como acontece frequentemente em temas de saúde, a resposta está algures entre a tranquilidade absoluta e o alarmismo.

O cloro fica só na água?

Não. O cloro é adicionado à água para eliminar bactérias, vírus e outros microrganismos. Sem ele, uma piscina seria um excelente meio de propagação de infeções.

O problema é que o cloro não reage só com micróbios. Reage também com suor, urina, células mortas da pele, cosméticos e outras substâncias orgânicas presentes na água. Dessa reação nascem os chamados subprodutos da desinfeção, entre os quais se destacam os trihalometanos, sobretudo o clorofórmio.

Estes compostos entram no corpo?

Sim. Estudos científicos confirmam que alguns destes subprodutos entram no organismo, tanto pela pele como pela respiração. Um trabalho de referência sobre o tema, conduzido por Erdinger e colegas, mediu a presença de clorofórmio no sangue de nadadores em diferentes condições e concluiu que a maior parte da exposição acontece pela via respiratória, sendo a pele responsável por apenas uma parte menor do total absorvido.

Outro estudo, feito com nadadores competitivos em piscinas interiores, detetou trihalometanos no ar alveolar (o ar que sai dos pulmões) logo após as sessões de treino, confirmando que estes compostos passam mesmo para dentro do corpo.

A pele absorve estes compostos?

Sim, mas de forma mais limitada. A pele consegue absorver pequenas quantidades de subprodutos como o clorofórmio, mas isso não significa que o corpo fique carregado de químicos depois de uns segundos na água.

A absorção cutânea depende de vários fatores: o tempo de exposição, a temperatura da água, a área de pele exposta, a concentração dos compostos e as características individuais de cada pele. É sabido que água mais quente favorece a absorção através da pele, pelo que banhos quentes e jacuzzis tendem a representar uma exposição cutânea superior à de uma piscina normal.

Respirar o ar da piscina pode pesar mais do que a pele

Vários estudos, incluindo o de Erdinger, sugerem que a via respiratória é a principal porta de entrada destes compostos, mais do que a absorção pela pele. Em piscinas interiores, os subprodutos da cloração acumulam-se no ar quando a ventilação não é suficiente. Ao respirar esse ar, parte desses compostos passa para os pulmões e daí para o sangue.

Por isso, muitos investigadores apontam a qualidade do ar das piscinas cobertas como um fator tão importante para a saúde dos utilizadores quanto a qualidade da água.

O que dizem os estudos sobre os pulmões?

Esta é provavelmente a área com evidência científica mais sólida. Vários trabalhos mostram que nadadores frequentes, em particular atletas de competição, apresentam mais sintomas respiratórios do que a população em geral: irritação das vias respiratórias, tosse, pieira e hiperreatividade brônquica, por vezes semelhante à observada em pessoas com asma.

As cloraminas, compostos que resultam da reação entre o cloro e substâncias com azoto presentes na água (como o suor e a urina), parecem ser as principais responsáveis por estes efeitos. O risco é mais relevante em piscinas interiores mal ventiladas e em quem passa muitas horas por semana dentro de água.

E a pele e os olhos?

Quem frequenta piscinas regularmente sabe que a pele fica muitas vezes mais seca depois de um contacto prolongado com água clorada. A investigação confirma que esta exposição repetida pode alterar a barreira natural da pele e provocar secura, comichão e irritação, e até agravar algumas condições dermatológicas já existentes. Na maioria das pessoas saudáveis, estes efeitos costumam ser temporários e reversíveis.

Os olhos são particularmente sensíveis aos subprodutos da cloração, e a irritação ocular é uma das queixas mais comuns entre utilizadores de piscinas. Mais uma vez, as cloraminas parecem estar na origem do problema. Um estudo realizado com nadadores recreativos e competitivos mostrou que, ao reduzir significativamente os níveis de oxidantes irritantes no ar da piscina, os sintomas oculares, nasais, cutâneos e respiratórios diminuíram de forma notória.

Devemos evitar as piscinas?

Não. A evidência científica não sustenta essa conclusão. A atividade física continua a ser uma das ferramentas mais eficazes para a saúde, e a natação traz benefícios cardiovasculares, musculares e metabólicos bem documentados.

O que a investigação sugere é que vale a pena minimizar a exposição desnecessária aos subprodutos da cloração. Algumas medidas simples ajudam bastante: tomar duche antes de entrar na piscina, evitar urinar na água, escolher piscinas bem ventiladas, voltar a tomar duche depois de nadar, hidratar a pele no final e usar óculos de natação quando necessário.

Estas medidas reduzem a formação de subprodutos químicos e diminuem a exposição global, tanto pela pele como pela respiração.

Conclusão

A ciência confirma que alguns compostos formados durante a cloração conseguem entrar no organismo, sobretudo pela respiração e, em menor grau, pela pele. Há evidência consistente de que a exposição frequente pode causar irritação respiratória, ocular e cutânea, principalmente em nadadores de competição e em espaços mal ventilados.

Ainda assim as piscinas continuam a ser uma forma segura e saudável de fazer exercício, desde que bem mantidas.

O objetivo não deve ser ter medo do cloro, mas sim entender como reduzir a exposição aos subprodutos que se formam quando ele reage com as impurezas presentes na água.

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