Os níveis de vitamina D aos 40 anos podem influenciar o cérebro décadas depois

A maioria das pessoas só pensa na saúde do cérebro quando algo corre mal. Um novo estudo publicado na Neurology Open Access sugere que essa altura pode já ser tarde de mais, e que o que importa é o que está a acontecer agora, aos 30 ou 40 anos.

O que o estudo analisou

Os investigadores acompanharam 793 adultos sem demência, com uma média de 39 anos, durante cerca de 16 anos. No início do estudo, mediram os níveis de vitamina D no sangue de cada participante. No fim, os participantes realizaram exames cerebrais por PET scan para avaliar a presença de duas proteínas associadas à doença de Alzheimer: a tau e a beta-amiloide.

Um nível de vitamina D acima de 30 nanogramas por mililitro foi classificado como elevado; abaixo desse valor, como baixo. No total, 34% dos participantes tinham níveis baixos, e apenas 5% tomavam suplementos de vitamina D.

O que encontraram

Depois de ajustarem fatores como idade, sexo e sintomas de depressão, os investigadores concluíram que níveis mais elevados de vitamina D estavam associados a menor acumulação de proteína tau anos mais tarde. Já em relação à beta-amiloide, não foi encontrada qualquer associação.

A proteína tau é um marcador central da degeneração cerebral. Quando se acumula de forma anormal dentro das células nervosas, interfere com o seu funcionamento e está fortemente ligada ao declínio cognitivo característico do Alzheimer.

O que este resultado significa, e o que não significa

O estudo é observacional. Encontrou uma associação, não uma relação de causa e efeito. É possível que pessoas com mais vitamina D tenham também outros hábitos protetores: mais tempo ao ar livre, mais atividade física, melhor saúde metabólica em geral.

O autor principal, Martin David Mulligan, da Universidade de Galway, sublinhou que os resultados sugerem que níveis mais elevados de vitamina D na meia-idade podem oferecer alguma proteção contra a formação desses depósitos de tau, e que níveis baixos poderão constituir um fator de risco modificável. Ainda assim, são necessários mais estudos para confirmar estas conclusões.

Uma das limitações reconhecidas é que os níveis de vitamina D foram medidos apenas uma vez, e não acompanhados ao longo do tempo.

Porque é que a vitamina D pode importar para o cérebro

Existem recetores de vitamina D em várias regiões cerebrais, incluindo áreas envolvidas na memória e na aprendizagem. A investigação existente sugere que esta vitamina pode ajudar a modular a inflamação cerebral, a proteger os neurónios contra stress oxidativo e a apoiar a comunicação entre células nervosas. Estudos anteriores já tinham associado deficiência de vitamina D a pior desempenho cognitivo e a maior risco de demência, embora os ensaios clínicos com suplementação apresentem resultados mistos.

A prevenção começa muito antes do que se pensa

Talvez o aspeto mais importante deste estudo não seja a vitamina D em si, mas o que ela representa: a ideia de que o cérebro começa a envelhecer silenciosamente muito antes de surgirem sintomas. Como sublinhou Mulligan, a meia-idade é um período em que a modificação de fatores de risco pode ter um impacto maior.

A deficiência de vitamina D é hoje muito comum. O corpo humano produz-a principalmente através da exposição da pele ao sol, e a alimentação raramente é suficiente para compensar uma exposição solar reduzida. Para quem passa a maior parte do dia em espaços fechados, faz sentido verificar os níveis com um simples análise ao sangue que mede a 25-hidroxivitamina D.

O objetivo não é perseguir valores extremos nem encarar a vitamina D como solução milagrosa. É evitar deficiência crónica num período da vida em que, segundo a evidência disponível, esses valores podem ter consequências que só se manifestam décadas mais tarde.

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