Quanto Vale Realmente a Nossa Suplementação?

O AG1® (Athletic Greens) é um suplemento multi‑ingrediente muito popular, promovido como uma solução prática para apoiar a saúde intestinal, a energia e o bem‑estar geral. A promessa é simples: muitos ingredientes num único produto.

Mas, em ciência da nutrição, o que importa não é a promessa, é a evidência. O que mostram realmente os estudos científicos disponíveis, tanto independentes como os publicados pela própria marca?

Evidência clínica em humanos

O único ensaio clínico publicado avaliou o AG1 em 30 adultos saudáveis, durante 4 semanas, num desenho randomizado, duplo-cego e controlado por placebo.

Os resultados foram claros:

  • Não houve alterações significativas em marcadores sanguíneos, inflamação ou metabolismo

  • Não houve melhoria estatisticamente significativa da qualidade de vida digestiva

  • Não se observou aumento da diversidade do microbioma

  • As alterações bacterianas foram pequenas e semelhantes ao placebo

Em resumo, o AG1 mostrou-se seguro, mas sem benefícios clínicos relevantes nas variáveis avaliadas.

Estudos laboratoriais

A restante evidência vem de modelos laboratoriais, como o SHIME (simulador do microbioma humano) e modelos celulares intestinais.

Estes estudos mostram alterações na composição do microbioma, aumento da produção de ácidos gordos de cadeia curta e potencial proteção da barreira intestinal em contextos inflamatórios artificiais.

No entanto, resultados in vitro não demonstram eficácia clínica em humanos e devem ser interpretados apenas como plausibilidade biológica.

Modelos celulares (Caco‑2 / THP1‑Blue™)

  • AG1®, a Novel Synbiotic, Maintains Gut Barrier Function following Inflammatory Challenge

O que mostra:

  • Potencial efeito protetor da barreira intestinal em contexto inflamatório artificial

Limitação: células em laboratório não replicam a complexidade do intestino humano.

Questões adicionais que a evidência levanta

Biodisponibilidade e matriz alimentar

Outro ponto pouco discutido é a biodisponibilidade. Vitaminas e minerais isolados, especialmente em pó e de origem sintética, não são absorvidos da mesma forma que nutrientes integrados em alimentos inteiros. A ciência da nutrição mostra que a chamada matriz alimentar importa: fibras, gorduras, proteínas e fitoquímicos interagem entre si e influenciam a absorção e utilização dos nutrientes.

Não está demonstrado que o organismo consiga tirar o mesmo proveito de cerca de 75 ingredientes processados num pó que de alimentos reais consumidos regularmente.

Custo de oportunidade

O AG1 tem um custo aproximado de 80 a 100 euros por mês. Esse valor levanta uma questão prática: o que poderia ser feito com o mesmo investimento em comida real?

Com esse montante mensal seria possível, por exemplo, aumentar de forma consistente o consumo de vegetais frescos, fruta, peixe, ovos e alimentos ricos em fibra, intervenções com benefícios bem documentados para a saúde metabólica e intestinal.

Em termos de impacto comprovado, a evidência a favor de uma alimentação de maior qualidade é muito mais robusta do que a evidência clínica atual para o AG1.

Segurança e consumo crónico

Embora o AG1 seja considerado seguro no curto prazo, não existem estudos de segurança a longo prazo que avaliem o consumo diário e contínuo, ao longo de anos, de uma fórmula com dezenas de ingredientes, incluindo adaptógenos como a ashwagandha.

A ausência de dados não implica risco confirmado, mas introduz incerteza, sobretudo quando se trata de um produto destinado a uso diário e prolongado.

Questões críticas que a ciência levanta

O complexo da dose

Um dos argumentos científicos mais frequentes contra o AG1 é o chamado complexo da dose. O produto contém cerca de 75 ingredientes diferentes. Em termos práticos, isto significa que muitos deles estão presentes em quantidades muito baixas, potencialmente subterapêuticas, o que torna improvável que produzam efeitos fisiológicos mensuráveis.

Este problema é agravado pelo uso de misturas proprietárias, que não divulgam as quantidades exatas de cada composto. Isto dificulta a avaliação crítica por parte de investigadores independentes e torna praticamente impossível replicar a intervenção em estudos científicos externos, um princípio central da boa ciência.

Custo versus benefício

Para o consumidor, a questão final é prática. Se o AG1 não demonstra benefícios clínicos claros em humanos saudáveis, mas ingredientes isolados como inulina, amido resistente ou fibras fermentáveis mostram efeitos consistentes em ensaios clínicos robustos, então o valor do produto torna-se questionável.

Neste contexto, o preço elevado do AG1 parece refletir sobretudo marketing, marca e conveniência, e não uma eficácia superior comprovada.

Conflito de interesses

Grande parte da investigação disponível sobre o AG1 é financiada ou conduzida pela própria empresa. O conflito de interesses, por si só, não invalida os dados, mas em ciência deve sempre ser considerado.

Quando estudos financiados pela própria marca não conseguem demonstrar benefícios clínicos estatisticamente significativos, isso torna-se um sinal ainda mais relevante. Se mesmo em condições favoráveis não se observam efeitos claros, a probabilidade de benefícios robustos no mundo real torna-se ainda menor.

Conclusão

O AG1 é um suplemento popular, cientificamente plausível e aparentemente seguro no curto prazo. No entanto, à luz da evidência atual:

  • Não demonstrou benefícios clínicos relevantes em adultos saudáveis

  • A maior parte dos dados vem de modelos laboratoriais

  • O custo mensal ronda os 80 a 100 euros

Quando comparado com alternativas mais simples e bem estudadas, como fibras isoladas ou uma alimentação rica em alimentos reais, o valor do AG1 parece residir mais na conveniência e no marketing do que na eficácia comprovada.

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