A Diferença Entre Consumir Azeite e Beneficiar Dele
O azeite, especialmente o extra virgem, é apresentado como um dos pilares da alimentação saudável. Mas o que dizem realmente os estudos científicos, para lá das tradições e opiniões?
Nos últimos anos, centenas de estudos ajudaram a clarificar onde estão os benefícios reais do azeite e onde começam as limitações.
Azeite e longevidade
Estudos da Harvard com milhares de pessoas mostram que quem consome azeite regularmente vive mais tempo. Estas pessoas apresentam menor risco de morrer por doenças cardiovasculares, problemas neurodegenerativos e outras causas crónicas.
É verdade que estes são estudos observacionais, não provam causa direta, mas mostram associações fortes e consistentes ao longo de décadas de acompanhamento. E isso conta.
Saúde cardiovascular
O estudo PREDIMED é provavelmente o mais importante nesta área. Mostrou que uma dieta mediterrânica suplementada com azeite extra virgem reduz significativamente o risco de enfarte e AVC quando comparada com uma dieta pobre em gordura.
Não é um estudo isolado. Meta-análises que juntam dezenas de estudos e centenas de milhares de pessoas confirmam o mesmo: o consumo de azeite está associado a menor risco de doença cardiovascular e menor mortalidade.
Os benefícios são mais claros quando o azeite substitui outras gorduras menos favoráveis, como gorduras saturadas ou óleos refinados. Ou seja, não basta adicionar azeite, importa também o que retiramos da dieta.
Nem todo o azeite é igual
Aqui está um ponto fundamental: vários estudos mostram que os efeitos mais consistentes aparecem com azeite extra virgem rico em polifenóis.
Ensaios clínicos randomizados demonstram que azeites com maior teor de compostos fenólicos melhoram marcadores importantes como oxidação do colesterol LDL, inflamação sistémica e função dos vasos sanguíneos.
Compostos como o hidroxitirosol e a oleuropeína parecem ser centrais nos efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios do azeite. Por isso é que a qualidade importa.
Azeite e saúde cerebral
Dados mais recentes associam o consumo de azeite a menor risco de morte relacionada com demência. Revisões científicas sugerem que os compostos fenólicos do azeite podem ter efeitos neuroprotetores, ajudando a atenuar processos ligados ao envelhecimento cerebral e ao declínio cognitivo.
Apesar de promissores, estes resultados dependem ainda sobretudo de estudos observacionais. Precisamos de mais ensaios clínicos focados diretamente na função cognitiva para ter certezas.
E quanto ao cancro e à diabetes?
No caso da diabetes tipo 2, as meta-análises mostram uma associação consistente: o consumo de azeite está ligado a menor risco.
Quanto ao cancro, os resultados são menos claros. Alguns estudos não encontram associações significativas, enquanto outros sugerem benefícios modestos dependendo do tipo de cancro e do padrão alimentar geral.
Isto reforça uma ideia importante: o azeite não é um alimento "milagroso", mas sim parte de um padrão alimentar mais amplo.
O contexto importa mais do que o alimento isolado
Vários estudos mostram que os benefícios do azeite são mais evidentes quando inseridos numa dieta mediterrânica, rica em vegetais, leguminosas, fruta, peixe e alimentos pouco processados.
Quando comparada isoladamente com uma dieta de baixo teor de gordura, a dieta mediterrânica com azeite nem sempre mostra melhorias consistentes em todos os marcadores. Isto mostra que os efeitos dependem do contexto, da duração da intervenção e do estado de saúde das pessoas.
Azeite não é apenas gordura monoinsaturada
Comparações entre azeite e outras fontes de gorduras monoinsaturadas sugerem que os benefícios do azeite vão além do perfil de ácidos gordos. A presença de polifenóis e outros compostos bioativos faz a diferença.
Não é só a gordura que conta, é o pacote completo.
O que podemos concluir
A evidência científica apoia o consumo regular de azeite extra virgem como parte de uma alimentação saudável, especialmente para a saúde cardiovascular e possivelmente para a saúde cerebral.
Os maiores benefícios surgem quando o azeite é de boa qualidade, rico em polifenóis, e quando substitui gorduras menos favoráveis dentro de um padrão alimentar equilibrado.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer as limitações. Nem todos os estudos mostram efeitos consistentes em todos os parâmetros, e o azeite não compensa uma alimentação pobre ou excessivamente processada.
Em resumo: o azeite é um bom aliado da saúde, mas não atua sozinho. Funciona melhor quando faz parte de um todo coerente, simples e baseado em comida de verdade.
Fontes
Harvard study: High olive oil consumption associated with longevity
Consumption of Olive Oil and Diet Quality and Risk of Dementia-Related Death
The effect of polyphenols in olive oil on heart disease risk factors: a randomized trial
Olive oil intake and cardiovascular disease, cancer, and all-cause mortality
The effect of high-polyphenol extra virgin olive oil on cardiovascular risk factors
Olive Oil Phenolic Compounds’ Activity against Age-Associated Cognitive Decline
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