A gravidez pode deixar marcas no ADN do bebé?
O ambiente em que o bebé se desenvolve pode influenciar a forma como os seus genes são usados. Este campo de estudo chama-se epigenética.
O que é a epigenética?
A epigenética estuda alterações na atividade dos genes sem modificar a sequência do ADN. O mecanismo mais estudado é a metilação do ADN: grupos químicos ligam-se a certas regiões do ADN e influenciam se determinados genes são ativados ou silenciados. O ADN continua o mesmo, mas a forma como é lido muda.
O que a investigação já demonstrou
A fome holandesa de 1944
Durante o inverno de 1944 a 1945, grande parte da população dos Países Baixos viveu em fome severa. Décadas mais tarde, investigadores analisaram adultos expostos a essa escassez ainda no útero e encontraram diferenças de metilação em genes relacionados com crescimento e metabolismo, detetáveis cerca de 60 anos depois. Um segundo estudo confirmou que estas alterações dependiam também do momento da gravidez em que ocorria a exposição, sugerindo a existência de períodos críticos do desenvolvimento fetal.
A nutrição antes de engravidar
Um estudo publicado na Nature Communications acompanhou mulheres na Gâmbia e verificou que os níveis maternos de nutrientes envolvidos na metilação, como o folato, a colina, a betaína e vitaminas do complexo B, estavam associados a diferenças de metilação nos recém-nascidos. O que a mãe come antes de engravidar pode já ter relevância biológica.
O açúcar no sangue
Uma investigação publicada na Epigenomics encontrou associações entre a regulação da glicose materna e alterações de metilação num gene envolvido no metabolismo da glicose e no risco de diabetes tipo 2. Uma meta-análise internacional posterior confirmou associações semelhantes no sangue do cordão umbilical. Não é uma previsão de doença, mas é uma influência biológica real.
Os ómega-3
Um estudo na Frontiers in Genetics associou uma maior ingestão materna de ómega-3 durante a gravidez a padrões de metilação diferentes em genes relacionados com processos metabólicos, inflamatórios e imunológicos.
O peso antes da gravidez
A Boston Birth Cohort encontrou associações entre um IMC pré-gestacional mais elevado, alterações de metilação no ADN dos filhos e maior risco de obesidade na infância, possivelmente mediadas por alterações metabólicas e inflamatórias durante a gestação.
O destino do bebé fica definido durante a gravidez?
Não. A epigenética não é uma sentença.
Os estudos mostram associações entre o ambiente intrauterino e certas marcas biológicas, mas essas marcas são apenas uma parte da história. A genética, o ambiente após o nascimento, a alimentação, o exercício, o sono e muitos outros fatores continuam a moldar a saúde ao longo da vida.
A gravidez é uma janela particularmente sensível do desenvolvimento humano, onde o ambiente nutricional e metabólico pode influenciar como certos genes são regulados. Um ponto de partida que pode ser mais ou menos favorável, mas que nunca é o único fator.
Em resumo
Uma alimentação equilibrada, um bom controlo da glicemia e um estado nutricional adequado durante a gravidez, e idealmente antes dela, podem contribuir para um ambiente mais favorável ao desenvolvimento fetal. Não se trata de perfeição. Trata-se de reconhecer que algumas escolhas feitas neste período têm impactos que vão além dos nove meses de gestação.
Fontes:
Persistent epigenetic differences associated with prenatal exposure to famine in humans
Maternal nutrition at conception modulates DNA methylation of human metastable epialleles
Incorporating Epigenetic Mechanisms to Advance Fetal Programming Theories
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