A Verdade sobre Cargas Leves e Ganho Muscular

Durante anos, o treino de força esteve associado a uma ideia simples: para ganhar músculo, é preciso levantar pesos pesados. Esta visão tornou-se dominante no mundo do fitness, mas raramente foi questionada.

A investigação científica mais recente mostra que essa associação é demasiado simplista. Vários estudos compararam treinos com cargas leves e pesadas, mantendo o volume e o esforço semelhantes. Os resultados são consistentes: não é obrigatório levantar sempre pesado para ganhar músculo.

O estudo que mudou tudo

No início da década de 2010, Stuart Phillips e a sua equipa na McMaster University publicaram um trabalho que virou muitas certezas de pernas para o ar.

  • Compararam homens jovens a treinar com 30% de 1RM (cerca de 25 repetições até à falha) versus 80% de 1RM (8-12 repetições).

  • O volume total de treino foi equiparado entre os grupos.

O resultado foi claro: ganhos de massa muscular praticamente idênticos. Isto contrariava décadas de dogma no mundo do fitness.

O que realmente importa

Estudos posteriores de Schoenfeld, Morton, Mitchell e outros confirmam que, quando o volume total é equiparado e as séries são levadas perto da falha muscular, a carga usada importa muito menos do que se pensava.

Um estudo de 2016 com homens bem treinados mostrou que:

  • Treino com cargas leves/moderadas (30-50% 1RM) resultou em hipertrofia semelhante ao treino pesado (70-80% 1RM).

  • Ganhos de força máxima foram superiores no grupo pesado, como esperado.

A importância da proximidade à falha

Treinar “perto da falha” significa que o músculo já não consegue completar mais repetições com boa técnica.

  • RIR (Reps in Reserve): deixar 0-3 repetições na reserva.

  • RPE (Rate of Perceived Exertion): esforço de 7-10 em 10.

Se treinas com 30% de 1RM mas paras antes da falha, o estímulo será insuficiente. Se treinas com 80% e vais até perto da falha, o músculo cresce.

Tensão mecânica e fadiga progressiva

O estímulo total ao músculo combina tensão por repetição e fadiga acumulada:

  • Cargas pesadas → alta tensão por repetição.

  • Cargas leves → menor tensão, mas acumulada ao longo de mais repetições e séries.

Um estudo de 2016 concluiu que nem a carga nem as flutuações hormonais agudas determinam a hipertrofia ou ganhos de força. O que importa é o trabalho mecânico total realizado pelo músculo.

E em atletas avançados?

Mesmo em levantadores de elite, cargas leves podem ser eficazes:

  • Treino leve (20-30% 1RM) → massa muscular mantida, menos dano e melhor recuperação.

  • Treino pesado → força máxima aumenta mais, mas gera mais fadiga.

Isto não significa abandonar totalmente o treino pesado, mas mostra que há margem para variação mesmo em atletas experientes.

Hipertrofia ≠ força

  • Hipertrofia: responde a um espectro amplo de cargas (30-85% 1RM), desde que o volume e a proximidade à falha sejam adequados.

  • Força máxima: melhora mais eficientemente com cargas pesadas, devido a adaptações neurais e coordenação motora.

Se o objetivo é estético ou de saúde, há mais liberdade na escolha das cargas. Para maximizar o 1RM em exercícios como agachamento ou supino, a especificidade do treino exige cargas elevadas.

Quando usar cargas leves (30–50% 1RM)

  • Limitações articulares ou pequenas lesões.

  • Fases de elevado volume de treino.

  • Gestão de fadiga acumulada.

  • Exercícios de isolamento difíceis com carga elevada.

  • Sessões menos intensas, mas com maior volume de trabalho.

Quando usar cargas pesadas (70–85% 1RM)

  • Desenvolvimento da força máxima.

  • Maior eficiência de tempo (menos repetições por série).

  • Movimentos competitivos ou técnicos que exigem especificidade.

  • Preferência individual ou motivação elevada.

  • Maximizar adaptações neurais e coordenação motora.

Como progredir com cargas leves

Estratégias eficazes:

  • Aumentar o número de repetições.

  • Adicionar séries mantendo repetições e carga.

  • Melhorar o tempo sob tensão, controlando a fase excêntrica ou pausando no ponto de maior esforço.

  • Reduzir tempos de descanso, aumentando a dificuldade metabólica.

  • Aumentar a frequência semanal do treino do mesmo grupo muscular.

Quando atingires o limite superior de repetições (25-30), aumenta ligeiramente a carga e reinicia o ciclo.

O fator esquecido: consistência

O melhor treino é o que consegues manter durante anos:

  • Levantar pesado com dores constantes não é sustentável.

  • Séries longas que entediam não funcionam a longo prazo.

O segredo é treinar perto da falha, gerir o volume e ser consistente.

Conclusão

A ideia de que é obrigatório levantar sempre pesado para ganhar músculo é um mito que a ciência desmontou. Dezenas de estudos em diferentes populações mostram que o músculo responde a um espectro amplo de cargas, desde que o volume total e a proximidade à falha sejam adequados.

Isto não torna o treino pesado obsoleto, mas liberta-nos de uma visão rígida. Há espaço para variação, individualização e adaptação. E isso pode ser a melhor notícia para quem quer construir músculo de forma sustentável ao longo de uma vida inteira de treino.

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