BOSU e superfícies instáveis: perda de tempo ou ferramenta útil?

Quando pensamos em treino de força, imaginamos normalmente pesos, barras e máquinas. No entanto, existem também equipamentos que desafiam o equilíbrio, como a BOSU, e que prometem tornar os exercícios mais exigentes.

Mas será que um exercício mais difícil é, necessariamente, um exercício melhor? A ciência ajuda-nos a responder a essa questão.

O que é o treino em superfícies instáveis

Falamos de exercícios feitos em equipamentos como a BOSU, a bola suíça, discos insufláveis ou pranchas de equilíbrio.

A diferença para o treino tradicional está no seguinte: o corpo precisa de trabalhar continuamente para manter o equilíbrio durante o movimento. Isto exige mais dos músculos estabilizadores e do sistema nervoso.

Aumenta a ativação muscular

Sim, e a evidência é sólida.

Uma revisão sistemática recente com 86 estudos e quase 1800 participantes mostrou que treinar em superfícies instáveis aumenta significativamente a atividade elétrica de vários músculos. Isso inclui o core (reto abdominal, oblíquos, eretores da espinha) e também músculos como o peitoral maior e o tríceps braquial em exercícios para o tronco superior.

No entanto, há um detalhe importante a reter.

Mais ativação muscular não é o mesmo que mais crescimento muscular. A eletromiografia mede atividade elétrica, mas a hipertrofia depende sobretudo da tensão mecânica, da carga usada, do volume de treino e da proximidade da falha muscular. Um músculo pode estar bastante ativo sem estar a receber o melhor estímulo para crescer.

É melhor para ganhar força e massa muscular

Na maioria dos casos, não.

Uma meta-análise que reuniu 22 estudos ao longo de diferentes idades comparou o treino de força em superfícies instáveis com o treino em superfícies estáveis. A conclusão foi clara: a instabilidade limita a carga que se consegue levantar e reduz a força e a potência produzidas durante o exercício. Nos poucos casos onde houve vantagens para a superfície instável, os ganhos foram pequenos e inconsistentes entre estudos.

Na prática, isto significa que um agachamento pesado no chão continua a ser mais eficaz para desenvolver força e hipertrofia do que o mesmo exercício em cima de uma BOSU.

Por isso, se o objetivo principal é ganhar massa muscular ou força máxima, o treino em superfícies estáveis continua a ser a melhor opção.

Então porque é que tanta gente usa a BOSU

Porque nem todos treinam com o mesmo objetivo.

A mesma meta-análise mostrou benefícios claros noutras capacidades, sobretudo no equilíbrio. Em adultos mais velhos, os efeitos no equilíbrio estático e dinâmico foram particularmente grandes.

Entre os benefícios mais consistentes encontram-se:

  • melhoria do equilíbrio estático e dinâmico

  • maior controlo neuromuscular

  • desenvolvimento da proprioceção

  • reforço dos músculos estabilizadores

  • utilização em programas de reabilitação e prevenção de lesões

Ou seja, aquilo que não é a melhor ferramenta para ganhar força máxima pode ser muito útil para melhorar a estabilidade e o controlo do movimento.

E para os atletas

Aqui a resposta também depende da modalidade.

Uma revisão sistemática publicada em 2025, que analisou 20 estudos com atletas de judo, basquetebol, futebol, voleibol, ginástica, badminton, halterofilismo e outras modalidades, concluiu que o treino com instabilidade melhora de forma consistente o equilíbrio recíproco, estático e dinâmico.

Estas adaptações fazem sentido porque muitos gestos desportivos acontecem em situações imprevisíveis, onde manter o equilíbrio é determinante para o desempenho e para reduzir o risco de lesão.

O caso específico do tornozelo

Vários estudos mostram que exercícios realizados sobre plataformas instáveis, incluindo a BOSU, aumentam a ativação dos músculos do tornozelo, como o gastrocnémio, o peroneal longo e o tibial anterior, em movimentos como o agachamento unipodal ou os lunges.

Isto ajuda a explicar porque este tipo de equipamento é tão utilizado em programas de reabilitação após entorses de tornozelo e noutras situações em que se pretende recuperar estabilidade articular.

Vale a pena usar a BOSU

Depende do objetivo.

Se o objetivo é força máxima ou massa muscular, os melhores resultados vêm de treinar em superfícies estáveis, onde é possível usar cargas mais elevadas e produzir mais força.

Se o objetivo passa por melhorar o equilíbrio, a estabilidade, a proprioceção ou complementar um programa de reabilitação, a BOSU pode ser uma excelente ferramenta.

Conclusão

A ideia de que a BOSU é "uma perda de tempo" não é suportada pela evidência científica.

O que a investigação mostra é mais simples: o treino em superfícies instáveis não substitui o treino tradicional quando o objetivo é força ou massa muscular, mas continua a ser uma ferramenta valiosa para desenvolver equilíbrio, estabilidade e controlo neuromuscular.

Em treino, como em quase tudo, não existem exercícios bons ou maus. Existem exercícios mais ou menos adequados ao objetivo que se quer atingir. A BOSU não é a melhor escolha para tudo, mas está longe de ser inútil. A ciência mostra que tem o seu lugar, quando usada no contexto certo.

Fontes:

Shorts:

Próximo
Próximo

Respiração Nasal: porque é essencial