O Perigo Escondido nos Talões
Vivemos rodeados de químicos invisíveis. Muitos passam completamente despercebidos porque fazem parte do nosso dia a dia. Um exemplo simples são os recibos que recebemos em lojas, supermercados ou multibancos.
Esse pedaço de papel, aparentemente inofensivo, pode ser uma das maiores fontes de exposição a disruptores endócrinos — substâncias químicas que interferem com o funcionamento normal do sistema hormonal — como o BPA e o BPS.
O que são os recibos térmicos?
A maioria dos recibos é impressa em papel térmico. Este tipo de papel não usa tinta. A impressão surge quando o papel é aquecido, graças a um revestimento químico que reage ao calor.
É precisamente nesse revestimento que está o problema.
O problema: BPA e BPS
O BPA (Bisfenol A) é um composto químico usado há décadas na produção de plásticos e de papel térmico. Está associado, em diversos estudos científicos, a perturbações hormonais, problemas de fertilidade, obesidade, diabetes tipo 2 e alguns tipos de cancro.
Devido à crescente preocupação pública e científica, o BPA começou a ser substituído pelo BPS (Bisfenol S). No entanto, a investigação mais recente mostra que esta substituição não resolveu o problema.
O BPS apresenta efeitos semelhantes no sistema endócrino e, em alguns casos, pode ser tão ou mais prejudicial do que o BPA.
Ou seja, trocar BPA por BPS não significa tornar o papel térmico seguro.
O impacto na saúde
Estudos científicos mostram que o contacto com papel térmico pode levar à absorção destes químicos através da pele, especialmente quando as mãos estão húmidas, suadas ou com cremes.
Não é necessário ingerir nem inalar. O simples toque repetido pode ser suficiente.
Por isso, funcionários de caixa, trabalhadores de lojas e pessoas que lidam diariamente com recibos estão entre os grupos mais expostos.
Expostos todos os dias
Uma investigação recente revelou que a maioria dos recibos analisados ainda contém BPA, BPS ou outros químicos semelhantes, apesar de algum progresso nos últimos anos.
Este dado é preocupante porque mostra que, mesmo com maior consciência pública, a exposição continua a ser frequente e diária.
Em alguns países, já se discute a proibição total deste tipo de papel. Noutras regiões, começam a ganhar força alternativas como recibos digitais enviados por e-mail, SMS ou QR code.
O que a ciência tem mostrado
A investigação científica aponta para três conclusões principais:
O papel térmico continua a conter bisfenóis em concentrações elevadas.
Estes compostos têm atividade hormonal, interferindo com mecanismos naturais do corpo.
A exposição pela pele é uma via relevante, sobretudo quando o contacto é repetido ao longo do tempo.
Mesmo exposições consideradas ocasionais podem influenciar parâmetros hormonais em adultos.
Alternativas e soluções práticas
Não é preciso radicalismo. Pequenos gestos fazem diferença:
Opta por recibos digitais sempre que possível — são mais seguros e mais ecológicos.
Evita tocar nos recibos desnecessariamente, sobretudo se tiveres as mãos húmidas ou com creme.
Lava as mãos após o contacto, especialmente antes de comer ou tocar na cara.
Se tens um negócio, considera papel térmico livre de BPA e BPS ou a transição para sistemas de faturação digital.
Pequenas mudanças, grandes impactos
Não se trata de entrar em pânico, mas de estar informado.
O contacto diário com papel térmico pode parecer inofensivo, mas representa uma fonte real e evitável de exposição a químicos com impacto hormonal.
Reduzir esse contacto — e exigir alternativas mais seguras — é uma escolha simples que protege a nossa saúde e, sobretudo, a de quem lida com recibos todos os dias.
Fontes:
Bisphenol S in Food Causes Hormonal and Obesogenic Effects Comparable to or Worse than Bisphenol A
Bisphenol A in Thermal Paper Receipts: An Opportunity for Evidence-Based Prevention
Detection of Endocrine Disruptor Bisphenol A and Bisphenol S in Bangladeshi Thermal Paper Receipts
Skin Absorption of Bisphenol A and Its Alternatives in Thermal Paper
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