Panelas Antiaderentes: Convenientes, mas a Que Custo?

Durante anos, as panelas antiaderentes pareceram a escolha óbvia. Nada pega, são fáceis de limpar e permitem cozinhar com menos gordura. A conveniência é real.

O problema é outro: o que está por trás desse revestimento.

O que são os “químicos eternos”

As panelas antiaderentes tradicionais utilizam revestimentos fluorados cuja produção e degradação estão associadas a PFAS, compostos perfluoroalquílicos e polifluoroalquílicos.

Estes compostos não estão apenas nas panelas. Encontram-se também em roupas impermeáveis, embalagens de fast food, tapetes resistentes a manchas e alguns cosméticos.

O ponto crítico é a sua persistência. Os PFAS quase não se degradam, nem no ambiente nem no corpo humano. Uma vez absorvidos, tendem a acumular-se ao longo do tempo. É por isso que são chamados “químicos eternos”.

O que diz a ciência, em resumo

Usar uma frigideira antiaderente de forma ocasional não causa uma doença imediata. O problema identificado pela ciência é a exposição crónica, repetida ao longo de anos.

Revisões sistemáticas e meta-análises associam níveis mais elevados de PFAS no organismo a:

  • Interferência hormonal e redução da fertilidade feminina

  • Alterações da função renal

  • Maior risco de alterações hepáticas, incluindo esteatose e fibrose

  • Associações com doença hepática metabólica em jovens

  • Aumento do risco de cancros do rim, fígado e testículos

Nem todos os mecanismos estão totalmente esclarecidos. Ainda assim, a consistência dos resultados justifica uma abordagem de precaução.

“Livre de PFOA” não significa livre de PFAS

Este é um dos maiores equívocos de marketing.

O PFOA foi progressivamente retirado do mercado devido aos seus riscos. Hoje, muitas marcas anunciam produtos “PFOA-free”. No entanto, isso não significa ausência de PFAS.

Na prática, um composto foi muitas vezes substituído por outro da mesma família, com estrutura semelhante e efeitos ainda pouco estudados. O nome muda, o problema permanece.

Quando o marketing fala mais alto

Mesmo marcas associadas a figuras conhecidas não estão imunes a controvérsia.

A HexClad, promovida com a imagem do chef Gordon Ramsay, enfrentou um processo judicial por publicitar as suas panelas como “non-toxic” apesar do uso de materiais associados a PFAS. O caso terminou com um acordo de 2,5 milhões de dólares, sem admissão de culpa.

A lição é simples: marketing não é sinónimo de segurança.

A questão da temperatura

A libertação de compostos fluorados é mais provável quando a superfície antiaderente está riscada ou quando a panela atinge temperaturas elevadas, geralmente acima dos 260 graus.

O que muita gente não sabe é que uma frigideira vazia ao lume pode atingir essa temperatura em apenas 2 a 5 minutos. Basta um descuido enquanto aqueces a panela antes de cozinhar.

O risco não vem de um episódio isolado, mas da soma de pequenas exposições repetidas ao longo do tempo.

Alternativas mais seguras

Quem quer reduzir a exposição a PFAS tem opções simples e testadas.

O aço inoxidável é durável, estável e não liberta químicos. Requer alguma técnica, mas não é complicado. Quando a panela está bem quente, uma gota de água desliza pela superfície em pequenas esferas (o chamado efeito Leidenfrost). Esse é o sinal de que podes adicionar a gordura e cozinhar sem que os alimentos peguem.

O ferro fundido, quando bem mantido, desenvolve uma superfície naturalmente antiaderente com o uso.

A cerâmica verdadeira pode ser uma opção, desde que certificada como livre de PFAS.

Vidro e barro tradicional são materiais inertes, ideais para forno e cozeduras lentas.

A decisão é tua

Este texto não é um apelo ao medo nem a mudanças radicais. É um convite à informação.

A saúde não depende apenas do que comes, mas também de como cozinhas. As panelas antiaderentes são práticas, mas a conveniência raramente é neutra.

Se decidires mudar, começa pela frigideira que usas todos os dias. Pequenas decisões repetidas têm mais impacto do que mudanças drásticas.

Informação não é alarmismo. É autonomia.

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