Produtos “Ricos em Proteína”: Quando o Rótulo Promete Mais do que Entrega
Nos últimos anos, os supermercados encheram-se de produtos que se dizem “ricos em proteína”. Iogurtes, sobremesas lácteas, barras, bebidas e até snacks comuns passaram a exibir valores proteicos em destaque na embalagem. A ideia é simples: proteína vende. O problema é que, em muitos casos, o rótulo não conta a história toda.
O teor de proteína nem sempre corresponde ao declarado
Vários estudos laboratoriais compararam o valor de proteína indicado no rótulo com análises químicas reais. Os resultados mostram discrepâncias frequentes, sobretudo em produtos processados e suplementos. Em alguns casos, o teor real de proteína é inferior ao declarado. Noutros, a diferença está dentro da margem legal, mas ainda assim longe da perceção criada no consumidor.
Para quem compra estes produtos com objetivos específicos, como ganho de massa muscular, recuperação pós-treino ou simplesmente maior saciedade, isto não é um detalhe irrelevante.
“Alto teor de proteína” não significa necessariamente muita proteína
Na legislação europeia, um alimento pode declarar “alto teor de proteína” se 20% da energia total vier da proteína. À primeira vista parece razoável, mas na prática permite situações enganadoras.
Um iogurte pode ostentar um selo proteico em letras grandes e, ainda assim, ter apenas mais um ou dois gramas de proteína do que um iogurte normal. O destaque visual cria uma expectativa que nem sempre se confirma quando se olha para a tabela nutricional.
Qualidade proteica: o elefante na sala
Nem toda a proteína é igual. A rotulagem informa a quantidade total, mas não a qualidade, a digestibilidade nem o perfil de aminoácidos, que é aquilo que o corpo realmente utiliza.
Alguns produtos aumentam artificialmente o valor proteico recorrendo a uma prática conhecida como amino spiking. Consiste na adição de aminoácidos isolados baratos, como glicina ou taurina, que inflacionam os testes laboratoriais baseados em azoto, mas não oferecem o mesmo valor metabólico que proteínas completas de elevada qualidade, como as do leite, dos ovos ou da carne.
Alegações de saúde muitas vezes exageradas
Análises de rótulos e materiais promocionais mostram que uma parte significativa das alegações associadas a produtos proteicos não está totalmente alinhada com a evidência científica nem com a regulamentação europeia.
Expressões como “ajuda a tonificar”, “contribui para a definição muscular” ou “ideal para o pós-treino” aparecem com frequência, mesmo quando o produto não oferece uma vantagem clara face a alternativas mais simples e mais baratas.
Produtos proteicos não são automaticamente saudáveis
Um erro comum é associar proteína a saúde de forma automática. Muitos produtos proteicos ultraprocessados continuam a conter açúcares adicionados, espessantes e grandes quantidades de edulcorantes.
Em particular, é comum encontrarem-se polióis como o maltitol. Em excesso, estes compostos estão associados a desconforto gastrointestinal, incluindo inchaço, gases e diarreia. É uma ironia difícil de ignorar em produtos que prometem bem-estar.
A proteína é importante, mas não compensa uma formulação pobre.
O “imposto da proteína”
Há outro fator raramente discutido: o preço. Muitos destes produtos implicam um prémio de 50 a 100% face a versões normais, pago essencialmente pela conveniência e pelo marketing.
Um iogurte grego simples, ovos cozidos ou uma lata de atum fornecem proteína de qualidade superior, sem aditivos desnecessários e por uma fração do custo. A proteína não precisa de vir envolta em plástico brilhante com selos chamativos.
O que retirar disto tudo
A ciência não diz que os produtos proteicos são inúteis. Diz algo mais simples e mais incómodo: é preciso saber ler além da frente da embalagem.
Antes de comprar, vale a pena olhar para:
As gramas reais de proteína por unidade, não apenas percentagens vagas
A lista de ingredientes e o grau de processamento, quanto mais curta, melhor
A comparação com a versão normal do mesmo alimento, muitas vezes a diferença é mínima
A relação entre proteína, açúcar e calorias totais
O preço por grama de proteína, porque muitas vezes estás a pagar marketing, não nutrição
Quando é que estes produtos fazem sentido?
Há situações legítimas. Se tens dificuldade em atingir as necessidades proteicas com alimentos completos, se estás em viagem ou se precisas de algo rápido entre treinos. Nesses casos, a escolha deve ser criteriosa, privilegiando listas de ingredientes curtas, proteína de qualidade e preços honestos.
Na maioria das situações, alimentos simples e pouco processados continuam a ser as fontes mais fiáveis de proteína. O marketing mudou. A fisiologia humana não.
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