Quantas flexões consegues fazer?

Um estudo publicado na JAMA Network Open por investigadores da Harvard T.H. Chan School of Public Health acompanhou 1.104 bombeiros do sexo masculino durante 10 anos e encontrou uma associação clara entre a capacidade de fazer flexões e o risco de eventos cardiovasculares.

Os participantes foram divididos em cinco grupos consoante o número de flexões realizadas no início do estudo. Os que conseguiram fazer mais de 40 flexões tiveram uma redução de 96% nos eventos cardiovasculares registados ao longo da década seguinte, em comparação com os que fizeram menos de 10. É um número impressionante. Mas é preciso lê-lo com cuidado.

O que o estudo mostra, e o que não mostra

A associação não é simples. Os dados revelam que os homens capazes de fazer mais flexões eram, em média, 13 anos mais novos, tinham menor IMC, pressão arterial mais baixa, triglicéridos e glicemia mais controlados e fumavam menos. Quando os investigadores ajustaram os resultados para a idade e o IMC, a associação manteve-se para alguns grupos, mas perdeu significância estatística noutros. Os próprios autores reconhecem que as diferenças nos fatores de risco cardiovascular clássicos explicam grande parte dos resultados observados.

Por outras palavras, as flexões não protegem o coração diretamente. São um reflexo do estado físico geral: quem consegue fazer muitas flexões tende a ter uma condição cardiovascular e metabólica melhor. A causa e o efeito não são o que o título sugere à primeira leitura.

Onde reside o valor deste trabalho

O que os investigadores propõem, com razoabilidade, é que o teste de flexões pode ser uma ferramenta de triagem rápida, gratuita e sem equipamento para estimar a capacidade funcional em contexto clínico ou ocupacional. Na comparação com o VO₂máx estimado por testes de esforço submáximos em passadeira, as flexões mostraram uma associação mais robusta com os eventos cardiovasculares futuros, possivelmente porque os testes submáximos são propensos a sobre ou subestimar a capacidade aeróbia real.

O que o estudo não pode dizer

A amostra é exclusivamente masculina, profissionalmente ativa e fisicamente acima da média. Os próprios autores alertam que os resultados podem não ser generalizáveis a mulheres, idosos, pessoas sedentárias ou outras ocupações. O número total de eventos cardiovasculares foi também reduzido (37 em 1.104 participantes), o que limita o poder estatístico e deixa algumas comparações entre grupos sem significância.

O que fazer com esta informação

Não existe um limiar mágico. Conseguir fazer menos de 10 flexões não é um diagnóstico, tal como ultrapassar as 40 não é uma garantia. O que a ciência mostra de forma consistente é que a condição física global, incluindo força muscular e aptidão cardiorrespiratória, está associada a menor risco cardiovascular. Melhorar progressivamente esse estado, seja por quantas flexões consegue fazer ou por qualquer outra métrica, é o que tem valor real.

As flexões são uma janela simples para a forma física. Não são uma cura, nem um teste de diagnóstico. Mas se hoje faz cinco e daqui a seis meses faz quinze, algo mudou no seu corpo que provavelmente também beneficia o seu coração.

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