Scrolling é o Novo Fumar?

O scrolling constante nas redes sociais tornou-se um comportamento amplamente normalizado. Passar minutos — ou horas — a deslizar o dedo num feed infinito já faz parte do quotidiano de milhões de pessoas. No entanto, a investigação científica começa a mostrar que este hábito, sobretudo quando passivo, prolongado e automático, pode ter consequências reais para a saúde mental, emocional e cognitiva.

Tal como aconteceu com outros comportamentos hoje reconhecidos como nocivos, os efeitos não são imediatos — são cumulativos e silenciosos.

O que é doomscrolling

O termo doomscrolling descreve o acto de rolar continuamente conteúdos, muitas vezes negativos ou alarmantes, sem um objetivo definido. Estudos associam este comportamento a níveis mais elevados de stress psicológico, pior bem-estar mental e maior dificuldade em regular emoções.

Quanto mais automático se torna o scroll, menor é a consciência do impacto emocional que está a ocorrer. O utilizador continua a consumir conteúdos não porque quer, mas porque o design da plataforma incentiva a continuidade.

Uso passivo: o verdadeiro problema

A ciência distingue claramente entre uso ativo das redes sociais (publicar, comentar, interagir de forma consciente) e uso passivo (apenas consumir conteúdos, sem intenção nem participação).

Os dados mostram que o uso passivo está mais fortemente associado a ansiedade, alterações de humor e dificuldades emocionais — sobretudo em adolescentes. Isto sugere que não é apenas o tempo de ecrã que importa, mas a forma como esse tempo é utilizado.

Mesmo quando o conteúdo não é explicitamente negativo, o consumo contínuo e passivo pode ter efeitos adversos.

Adolescência e comportamento aditivo

Durante a adolescência, o cérebro ainda se encontra em desenvolvimento. Os sistemas de recompensa amadurecem mais cedo do que os mecanismos de controlo e autorregulação, o que torna os feeds infinitos particularmente eficazes em capturar atenção.

Estudos mostram que o uso frequente de redes sociais, facilitado por scroll contínuo, está associado a comportamentos aditivos e pior saúde psicossocial. A sequência constante de estímulos rápidos e imprevisíveis segue um padrão conhecido por reforçar hábitos compulsivos, semelhante ao observado noutras formas de dependência comportamental.

Impacto na atenção e na cognição

A investigação sugere que o formato de scrolling contínuo pode prejudicar a compreensão de textos complexos, especialmente em pessoas com menor capacidade de memória de trabalho.

A atenção fragmentada, típica deste padrão de consumo, dificulta o pensamento profundo e a permanência num único tópico durante períodos prolongados. Este fenómeno ajuda a explicar a crescente dificuldade em manter foco sustentado, mesmo fora do ambiente digital.

O papel do design

O scroll infinito não é um acaso. Estudos sobre dark patterns e design frictions mostram que muitas plataformas são deliberadamente desenhadas para eliminar pontos naturais de paragem e maximizar o tempo de utilização.

Ao reduzir momentos de pausa e reflexão, este tipo de design diminui a autoconsciência do utilizador e favorece um uso automático — um padrão semelhante ao observado em comportamentos aditivos.

Consequências para a saúde mental

Revisões científicas associam o uso intensivo de redes sociais a ansiedade, sintomas depressivos, pior qualidade do sono, alterações de humor e problemas de imagem corporal.

Embora a maioria destes estudos seja observacional — o que impede conclusões causais diretas — a consistência dos resultados, em diferentes populações e contextos, reforça a preocupação, sobretudo quando o uso é prolongado, passivo e não intencional.

Então, scrolling é o novo fumar?

A comparação não é literal, mas é pertinente. Tal como o tabaco, o scrolling é amplamente normalizado, começa cedo e explora vulnerabilidades humanas. Os seus efeitos não são imediatos, mas acumulam-se ao longo do tempo.

A ciência não defende a eliminação das redes sociais, mas aponta para um alerta claro: o cérebro humano não foi feito para feeds infinitos.

Recuperar pausas, criar limites e transformar o uso automático em uso consciente pode fazer uma diferença significativa na saúde mental a longo prazo.

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