Ter filhos mais tarde faz viver mais?
Ter filhos mais tarde pode aumentar a longevidade. Algumas fontes falam até em probabilidades muito superiores de viver até aos 90 ou 100 anos. Mas quando olhamos para a ciência com atenção, a história é bem mais sóbria.
O que os estudos mostram
Estudos como Reproduction Later in Life is a Marker for Longevity in Women e Maternal Age at Childbirth and Parity as Predictors of Longevity Among Women in the United States mostram que mulheres que tiveram filhos mais tarde tendem, em média, a viver mais tempo. Outros, como Maternal capacity, twinning and fertility: the last birth matters, apontam na mesma direção.
À primeira vista, parece uma relação direta. Mas não é.
Associação não é causa
O ponto mais importante é este: estes estudos mostram associação, não causalidade.
A explicação mais provável é simples. Mulheres que conseguem engravidar mais tarde tendem a envelhecer mais devagar. Isso permite-lhes manter a fertilidade durante mais tempo e, ao mesmo tempo, viver mais anos.
Isto é um exemplo clássico de causalidade invertida.
Não é ter filhos mais tarde que aumenta a longevidade. É um organismo mais resistente que permite ambas as coisas.
O papel da genética
Estudos genéticos como Identification of 371 genetic variants for age at first sex and birth linked to externalising behaviour reforçam esta ideia.
Existem variantes genéticas associadas à idade reprodutiva que também estão ligadas à saúde metabólica e à longevidade. Ou seja, algumas pessoas têm um perfil biológico que influencia simultaneamente quando têm filhos e como envelhecem.
Mais uma vez, não é o comportamento que causa o efeito.
Nem mais cedo nem mais tarde
Estudos como Age at first birth and long-term mortality for mothers e Relationship between biological ageing, premature mortality, life expectancy, and number of live births mostram que a relação não é linear.
Existe uma relação em forma de U:
Idades muito precoces estão associadas a piores resultados de saúde
Idades intermédias tendem a ser mais favoráveis
Idades muito tardias apresentam resultados mistos
Nos extremos entram fatores diferentes. No caso da maternidade tardia, há um efeito de seleção: só uma parte das mulheres consegue engravidar mais tarde, e esse grupo tende a ser biologicamente mais saudável.
Os riscos que raramente se mencionam
A maternidade tardia também está associada a riscos bem documentados.
Estudos como Advanced Maternal Age, Advanced Maternal Age and Adverse Pregnancy Outcome e Advanced maternal age and adverse pregnancy outcomes mostram maior probabilidade de diabetes gestacional, hipertensão, pré-eclâmpsia, parto prematuro e complicações neonatais.
Trabalhos como Associations of maternal age with outcomes in very low birth weight singleton infants mostram que estes riscos também afetam os recém-nascidos.
Isto não significa que seja errado ter filhos mais tarde. Significa apenas que existem trade-offs biológicos reais.
Conclusão
Existe uma associação entre ter filhos mais tarde e maior longevidade. Mas essa relação não é causal.
A explicação mais consistente é que mulheres que envelhecem mais devagar conseguem manter a fertilidade durante mais tempo e também vivem mais anos.
A fertilidade tardia funciona como um marcador de saúde, não como um fator que aumenta a longevidade. Essa distinção pode parecer subtil, mas muda completamente a forma como interpretamos estes resultados.
Fontes:
Reproduction Later in Life is a Marker for Longevity in Women
Maternal Age at Childbirth and Parity as Predictors of Longevity Among Women in the United States
Maternal capacity, twinning and fertility: the last birth matters
Associations of maternal age with outcomes in very low birth weight singleton infants
Shorts:
