Treinar uma hora por dia não chega se passares o resto do tempo sentado

Muitas pessoas acreditam que o exercício diário compensa as horas passadas sentadas. A lógica parece razoável: se vais ao ginásio, corres ou fazes uma aula de treino, estás protegido dos efeitos do sedentarismo.

A ciência mostra que não é bem assim.

O "sedentário ativo"

Os investigadores criaram uma expressão para descrever este paradoxo: active couch potato, ou "sedentário ativo". Refere-se a alguém que cumpre as recomendações de exercício físico, mas que passa grande parte do dia imóvel.

Imagina uma pessoa que treina uma hora antes do trabalho, mas depois passa oito ou dez horas sentada em frente ao computador, conduz até casa e termina a noite no sofá. Apesar do treino, acumula um padrão de inatividade com consequências reais para a saúde.

Um estudo publicado no Current Cardiovascular Risk Reports foi um dos primeiros a distinguir formalmente estes dois comportamentos: exercício e sedentarismo são variáveis independentes, e cada uma delas tem impacto próprio sobre a saúde.

O que acontece no corpo quando ficamos parados

O problema não é apenas gastar menos calorias. Quando permanecemos sentados durante muito tempo, a atividade muscular nos grandes grupos musculares das pernas e glúteos cai drasticamente. Esta redução afeta o controlo da glicose no sangue, a sensibilidade à insulina, a circulação e o metabolismo energético.

A nível celular, um estudo publicado no Scientific Reports mostrou que interromper regularmente o tempo sentado ativa vias associadas à captação de glicose pelos músculos, tanto por contração muscular como pela ação da insulina. Ou seja, os músculos tornam-se mais eficazes a retirar açúcar da corrente sanguínea, mesmo com movimentos simples e de baixa intensidade.

O que a investigação diz sobre pausas

Nos últimos anos, vários estudos analisaram o efeito de interromper o tempo sentado ao longo do dia.

Uma revisão sistemática publicada no Sports Medicine concluiu que pausas curtas com movimento leve melhoram marcadores cardiometabólicos como a glicose pós-prandial, a insulina e a pressão arterial. E os benefícios apareceram mesmo com pausas relativamente curtas.

Quanto à frequência ideal, um estudo publicado em 2024 no British Journal of Sports Medicine sugere que interromper o tempo sentado aproximadamente a cada 30 minutos produz melhorias relevantes no controlo da glicose e noutros indicadores metabólicos.

Outro estudo analisou especificamente os efeitos cognitivos destas pausas e observou melhorias na atenção e concentração após períodos prolongados de inatividade interrompida. Quando nos movemos, aumentamos o fluxo sanguíneo cerebral e estimulamos sistemas relevantes para o funcionamento cognitivo, o que pode ajudar a manter o foco e a produtividade ao longo do dia.

O que fazer na prática

Continua a ser fundamental fazer exercício. Mas isso não elimina a necessidade de te mexeres ao longo do dia.

Se passas muitas horas sentado, tenta levantar-te a cada 30 minutos e mover o corpo durante 2 a 5 minutos. Não é preciso fazer um treino completo: caminhar, subir escadas, alguns agachamentos ou movimentos articulares simples são suficientes. Podes atender chamadas em pé, criar lembretes para interromper a inatividade ou simplesmente circular pelo escritório ou pela casa.

O objetivo não é a perfeição. É evitar que o corpo permaneça imóvel durante horas seguidas.

Conclusão

Durante anos, a conversa sobre saúde centrou-se quase exclusivamente no exercício. Hoje sabemos que existe outra variável independente e igualmente relevante: o tempo que passamos sentados.

Treinar uma hora por dia continua a ser excelente. Mas o corpo não foi desenhado apenas para essa hora. Foi desenhado para se mover ao longo de todo o dia. E levantar-se da cadeira durante alguns minutos pode fazer mais diferença do que parece.

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