Alimentação, sono e movimento contra o Alzheimer

Durante muitos anos, a doença de Alzheimer foi tratada como um processo inevitável. Depois de o cérebro começar a degenerar, pouco havia a fazer além de gerir sintomas com medicação.

Essa visão está a ser desafiada.

Nos últimos anos, vários investigadores publicaram estudos que colocam uma questão diferente: e se intervenções intensivas no estilo de vida conseguirem melhorar, ou pelo menos travar, o declínio cognitivo em fases iniciais?

A resposta mais honesta neste momento é: em alguns casos, parece que sim.

O que dizem os estudos?

O neurologista Dale Bredesen foi um dos primeiros a publicar resultados nesta área. Em 2014, descreveu uma série de casos em que pacientes com declínio cognitivo apresentaram melhorias após uma intervenção multifatorial personalizada. Em 2016, publicou um segundo estudo com resultados semelhantes, incluindo casos de Alzheimer em fase inicial. Os protocolos incluíam alimentação com baixa carga glicémica, jejum noturno, exercício regular, otimização do sono, redução do stress e correção de défices nutricionais.

Em 2023, Heather Sandison publicou no Journal of Alzheimer's Disease um estudo que acompanhou pessoas com declínio cognitivo durante seis meses, com uma abordagem igualmente multifatorial. No final, os investigadores observaram melhorias estatisticamente significativas em testes cognitivos e de memória.

O estudo mais robusto até à data foi publicado por Dean Ornish em 2024, na revista Alzheimer's Research & Therapy. Tratou-se do primeiro ensaio clínico randomizado e controlado a testar se mudanças intensivas de estilo de vida podem afetar a progressão de comprometimento cognitivo ligeiro ou demência inicial por Alzheimer. Ao fim de 20 semanas, o grupo de intervenção mostrou melhorias ou estabilização em três das quatro medidas cognitivas principais, enquanto o grupo de controlo piorou em todas. O rácio plasmático Aβ42/40, um biomarcador relevante para Alzheimer, aumentou no grupo de intervenção e diminuiu no grupo de controlo, com diferença estatisticamente significativa.

O que incluíam estas intervenções?

Embora os protocolos variem entre investigadores, existem elementos comuns:

  • alimentação com baixa carga glicémica, com redução de ultraprocessados

  • exercício físico regular

  • sono de qualidade

  • gestão do stress

  • estimulação cognitiva

  • controlo de défices nutricionais e metabólicos

  • apoio social

O princípio subjacente é que o cérebro não funciona isolado do resto do corpo. Fatores como resistência à insulina, inflamação crónica, sono insuficiente e sedentarismo prolongado têm impacto direto na saúde cerebral, e podem ser modificados.

O Alzheimer pode ser revertido?

Aqui é importante separar evidência de entusiasmo excessivo.

Os estudos mostram que algumas pessoas conseguem melhorar sintomas cognitivos, sobretudo em fases iniciais ou em casos de comprometimento cognitivo ligeiro. Mas isso não significa necessariamente que neurónios destruídos tenham sido regenerados ou que a doença tenha desaparecido.

A comunidade científica mantém cautela justificada. Vários dos estudos disponíveis têm amostras pequenas, protocolos complexos difíceis de replicar, múltiplas variáveis alteradas em simultâneo e acompanhamento limitado no tempo. O estudo de Ornish é uma exceção metodológica relevante, mas trata-se ainda de um ensaio de fase 2, com 51 participantes.

O que parece cada vez mais claro é outra coisa: o estilo de vida tem um impacto muito maior na saúde cerebral do que se pensava há uma década.

O que tem evidência mais sólida até agora?

A literatura científica apoia de forma consistente o papel protetor de atividade física regular, sono de qualidade, controlo da glicemia e pressão arterial, dieta mediterrânica, redução de ultraprocessados, estimulação cognitiva e socialização. A dieta cetogénica apresenta resultados promissores em alguns estudos, especialmente no metabolismo cerebral, mas ainda sem consenso definitivo.

Afirmações como "Alzheimer revertido" ou "cura natural da demência" simplificam demasiado um problema muito complexo. O que a evidência disponível autoriza a dizer é mais modesto, mas não menos importante: em fases iniciais, intervenções intensivas no estilo de vida podem melhorar sintomas, atrasar a progressão e aumentar a qualidade de vida.

E isso já é muito relevante.

Fontes:

Shorts:

Próximo
Próximo

Até onde consegue ir o corpo humano?