Betaína HCl e Ácido do Estômago: estamos a culpar a comida errada?

Quando aparece inchaço, refluxo ou má digestão, a reação mais comum é pensar “comi alguma coisa que me fez mal”. Mas há outra possibilidade que raramente entra na conversa: o estômago pode simplesmente não estar a produzir ácido suficiente.

O ácido gástrico faz mais do que parece

O ácido do estômago não serve apenas para decompor alimentos. Ele ativa a pepsina, a enzima que inicia a digestão das proteínas, facilita a absorção de ferro, cálcio e vitamina B12 e funciona como uma barreira natural contra microrganismos. Sem acidez suficiente, a digestão fica comprometida logo à partida.

A hipocloridria, o nome técnico para baixa acidez gástrica, pode ter várias causas: envelhecimento, infeção por Helicobacter pylori, uso prolongado de inibidores da bomba de protões ou doenças autoimunes como a gastrite autoimune, onde as próprias células que produzem ácido são destruídas pelo sistema imunitário.

Há também evidência experimental e observacional de que um ambiente gástrico menos ácido pode alterar a microbiota do intestino delgado, permitindo que sobrevivam bactérias que normalmente seriam eliminadas. Isso pode contribuir para sintomas como inchaço e desconforto abdominal.

O ácido não é um detalhe. É uma peça central da fisiologia digestiva.

O que diz a ciência sobre a betaína HCl

A betaína HCl é um suplemento usado para aumentar a acidez gástrica. E há estudos que mostram que funciona, pelo menos do ponto de vista fisiológico.

Num estudo, investigadores induziram hipocloridria em voluntários saudáveis com um medicamento supressor de ácido e depois administraram betaína HCl. O pH gástrico desceu rapidamente e manteve-se ácido durante cerca de uma hora.

Noutro estudo, essa restauração da acidez aumentou significativamente a exposição sistémica de um medicamento cuja solubilidade depende do pH. Isto demonstra que alterar o ambiente ácido do estômago pode ter impacto real na absorção de substâncias.

Ou seja, a betaína HCl consegue acidificar o estômago de forma mensurável, com consequências fisiológicas observáveis.

Quanto ao momento de toma, faz sentido utilizá-la durante a refeição e não em jejum. A presença de comida altera o pH e a dinâmica gástrica, e a resposta depende da dose, do volume alimentar e do tempo de contacto.

Mas resolve refluxo e inchaço?

Aqui a honestidade importa. Ainda não sabemos com certeza.

Os estudos mostram que a betaína HCl consegue alterar o pH gástrico e melhorar a absorção de certas substâncias. Em casos com hipocloridria comprovada, como na gastrite autoimune, existe lógica clínica em considerar estratégias que compensem a perda de ácido.

Mas para pessoas com refluxo ou inchaço sem diagnóstico claro de hipocloridria, a evidência ainda é limitada. Faltam ensaios clínicos de grande dimensão que confirmem benefícios consistentes na população geral.

Também é importante não cair no extremo oposto. O refluxo nem sempre está relacionado com excesso de ácido, mas muitas vezes com alterações no esfíncter esofágico inferior, aumento da pressão intra-abdominal ou presença de hérnia do hiato. A dispepsia tem múltiplas causas possíveis. A ideia de que quase tudo se resolve com mais ácido é uma simplificação.

O que levar disto

O ácido do estômago é central para a digestão de proteínas, absorção de nutrientes e controlo microbiano. A betaína HCl consegue restaurar temporariamente a acidez em contextos específicos e isso tem impacto fisiológico mensurável.

Mas a evidência para uso generalizado em sintomas digestivos comuns ainda está em construção.

Antes de assumir que o problema é sempre a comida, pode valer a pena perceber se o corpo está a conseguir processá-la de forma eficiente. Porque o problema nem sempre é o que comemos. Às vezes é como o corpo está preparado para digerir.

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