É Seguro Usar o Micro-Ondas?
O micro-ondas é um dos eletrodomésticos mais usados na cozinha moderna e também um dos mais mal compreendidos. Gera dúvidas sobre perda de nutrientes, compostos tóxicos e efeitos na saúde. A ciência tem respostas claras para a maioria dessas questões.
Como funciona
O micro-ondas usa radiação eletromagnética não ionizante para aquecer alimentos através da agitação das moléculas de água. Não altera o ADN nem torna os alimentos radioativos. O efeito é térmico, como qualquer outro método de cozedura. A diferença está apenas na direção: em vez de aquecer de fora para dentro, o micro-ondas aquece diretamente o interior do alimento.
Perda de nutrientes
A perda de nutrientes depende sobretudo do tempo de cozedura e da quantidade de água usada, não do tipo de energia. Como o micro-ondas cozinha mais depressa e normalmente usa menos água, pode até preservar melhor certas vitaminas hidrossolúveis, como a vitamina C e algumas do complexo B. Vários estudos confirmam que a retenção de nutrientes é semelhante ou superior à de métodos convencionais.
Alterações nos alimentos
O micro-ondas altera a estrutura de proteínas, amidos e gorduras, mas estas alterações são consequência do calor, não da radiação em si. As proteínas desnaturam, os amidos gelatinizam e as gorduras oxidam em qualquer método de cozedura quando expostos a temperaturas elevadas. Não existe nenhum dano molecular exclusivo do micro-ondas.
Aquecimento desigual e segurança alimentar
Este é um dos pontos mais importantes. O micro-ondas pode criar zonas mais quentes e zonas mais frias no interior dos alimentos, dependendo da distribuição do campo eletromagnético e das propriedades de cada alimento. O problema real é microbiológico: microrganismos podem sobreviver nas zonas que não atingem temperatura suficiente. A solução é simples: mexer os alimentos durante o aquecimento e deixá-los repousar alguns minutos no final.
Formação de compostos potencialmente tóxicos
A acrilamida, um composto associado a alimentos ricos em amido submetidos a altas temperaturas, pode formar-se no micro-ondas em certas condições. No entanto, o mesmo acontece na fritura e no forno convencional. O que determina a sua formação é a temperatura e o tempo de aquecimento, não a fonte de energia.
O problema dos plásticos
Esta é provavelmente a preocupação mais legítima, mas não está no micro-ondas em si. Substâncias químicas presentes em recipientes plásticos podem migrar para os alimentos durante o aquecimento, especialmente em contacto com alimentos gordos. Este fenómeno ocorre tanto no micro-ondas como no aquecimento convencional. A forma mais simples de reduzir esta exposição é usar recipientes de vidro ou cerâmica.
Efeitos diretos da radiação no organismo
Alguns estudos laboratoriais analisaram os efeitos de radiação de micro-ondas em células. Estes estudos são relevantes para investigação básica, mas as suas condições experimentais diferem muito da exposição real durante o uso doméstico. Até hoje, não existem estudos epidemiológicos robustos que demonstrem efeitos adversos crónicos em humanos associados ao uso normal do micro-ondas.
O que a ciência diz e o que ainda falta
Com base na evidência atual, podemos afirmar que o micro-ondas não destrói mais nutrientes do que outros métodos, que os seus efeitos são térmicos e não específicos da radiação, e que não há evidência científica sólida de riscos a longo prazo para a saúde humana. O que ainda falta são grandes estudos epidemiológicos que comparem populações com diferentes padrões de uso ao longo do tempo. A ausência desses estudos não significa que exista um risco oculto, significa apenas que a investigação se tem focado mais nos mecanismos físicos e químicos do que em resultados clínicos humanos.
Conclusão
A evidência científica atual não sustenta a ideia de que o micro-ondas seja prejudicial quando usado corretamente. Os cuidados mais importantes são práticos: garantir que o aquecimento é uniforme e evitar recipientes plásticos inadequados. A discussão sobre micro-ondas deve sair do campo dos mitos e entrar no campo dos dados, e os dados apontam para um método seguro, desde que usado com bom senso.
Fontes:
Effects of microwave cooking/reheating on nutrients and food systems
Uniform temperature distribution in microwave heating achieved via rotating electric field
Effect of Microwave Heating on the Acrylamide Formation in Foods
Influence of Super-Low-Intensity Microwave Radiation on Mesenchymal Stem Cells
Potential antioxidant migration from polyethylene packaging to food
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