Peixe no Prato num Oceano cada vez mais Poluído

O peixe continua a ser um dos alimentos mais completos que existem. Rico em proteína, cheio de ómega-3, com minerais como iodo e selénio, durante décadas foi sinónimo de alimentação saudável. E ainda é.

Mas os oceanos mudaram. E quando o oceano muda, o que comemos também muda.

O que está a entrar na cadeia alimentar

Microplásticos

Fragmentos minúsculos de plástico estão hoje em praticamente todos os oceanos do planeta. Chegam ao mar através de resíduos urbanos, das fibras que a roupa sintética larga na máquina de lavar, das partículas de pneus que a chuva arrasta para os rios.

Esses fragmentos são ingeridos por organismos marinhos pequenos. Depois são comidos por peixes maiores. E acabam por chegar ao nosso prato.

Vários estudos confirmam que microplásticos já foram encontrados em espécies comerciais em diferentes partes do mundo. Num estudo realizado no Golfo da Tailândia, quase metade dos peixes analisados apresentava microplásticos no trato digestivo.

A boa notícia é que estas partículas aparecem sobretudo nos órgãos que normalmente não comemos. A má notícia é que a sua presença mostra até onde o plástico já chegou.

Os “químicos eternos”

Os PFAS são substâncias usadas em revestimentos antiaderentes, embalagens e tecidos impermeáveis. São frequentemente chamados de “químicos eternos” porque praticamente não se degradam e podem permanecer no ambiente durante décadas.

Estudos científicos mostram que o peixe e o marisco podem ser uma das principais fontes de exposição alimentar a estas substâncias. Foram detetados em várias espécies marinhas em diferentes regiões do mundo, desde o Atlântico até ao Golfo da Guiné.

Mercúrio

O mercúrio é provavelmente o contaminante marinho mais conhecido. O seu comportamento na cadeia alimentar segue um processo chamado biomagnificação. À medida que subimos na cadeia alimentar, a concentração aumenta.

Peixes maiores e predadores acumulam mais mercúrio ao longo da vida. É por isso que espécies como atum tendem a apresentar níveis mais elevados do que peixes mais pequenos como sardinha ou carapau.

Para a maioria das pessoas, o consumo habitual de peixe continua dentro dos limites considerados seguros. Mesmo assim, é um dado importante para compreender como funcionam os contaminantes no oceano.

Quando os contaminantes se juntam

Uma das descobertas mais recentes da investigação é que estes problemas raramente existem isolados. Os microplásticos podem funcionar como superfícies onde metais pesados se fixam. Na prática, podem transportar contaminantes adicionais quando são ingeridos pelos peixes.

Há também investigação crescente sobre os nanoplásticos. São partículas ainda mais pequenas do que os microplásticos e, em alguns estudos experimentais, mostraram capacidade para atravessar tecidos e acumular-se em diferentes órgãos.

Este campo de investigação ainda é recente, mas os primeiros resultados sugerem que vale a pena acompanhar o tema com atenção.

E o peixe de aquacultura

O peixe de aquacultura não está automaticamente isento destes problemas. Alguns estudos encontraram microplásticos e metais pesados tanto no trato digestivo como em certos tecidos de peixes criados em viveiro.

A origem da contaminação pode ser diferente, muitas vezes relacionada com o ambiente ou com a alimentação usada na produção, mas o fenómeno também existe.

Então devemos deixar de comer peixe?

Não é essa a conclusão da ciência.

O peixe continua a ser um alimento muito nutritivo e valioso. O que estes estudos mostram é outra coisa. Mostram que a poluição dos oceanos já entrou na cadeia alimentar.

Microplásticos, PFAS e mercúrio são hoje detetados em peixes de diferentes partes do mundo. Não como exceção isolada, mas como reflexo do estado atual dos oceanos.

No fundo, o problema não é o peixe. É o ambiente onde ele vive.

E isso deixa de ser apenas uma questão ambiental para passar também a ser uma questão de saúde pública. Proteger os oceanos significa, cada vez mais, proteger aquilo que acaba no nosso prato.

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